Do menor jornal do mundo à coroação de Milton Nascimento: 10 curiosidades que contam a história de 114 anos de Divinópolis
01/06/2026
(Foto: Reprodução) Divinópolis comemora 114 anos nesta segunda-feira (1º)
Anna Lúcia Silva/g1
Muito além da moda e do crescimento urbano, Divinópolis guarda histórias que ajudam a explicar a identidade cultural do município. Algumas delas estão presentes no cotidiano dos moradores. Outras atravessaram décadas e ganharam repercussão nacional e até internacional.
Há bairro famoso que oficialmente não tem o nome pelo qual é conhecido, estabelecimento tradicional que nunca vendeu batatas, festas que paravam ruas inteiras e até um jornal tão pequeno que entrou para o Guinness Book.
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No aniversário de 114 anos de Divinópolis, comemorado nesta segunda-feira (1º), o g1 reuniu curiosidades que ajudam a contar parte da memória afetiva do município. Entre elas estão a coroação de Milton Nascimento como Rei do Congo diante de milhares de pessoas, a importância decisiva da ferrovia para o crescimento da cidade e a história do Vossa Senhoria.
Entre tradição, música, esporte, cultura popular e histórias que atravessaram gerações, Divinópolis mostra que o passado do município vai muito além dos livros. Ele segue vivo nas ruas, nos bairros, nas festas e na memória dos moradores.
1. O nome oficial do bairro Sidil não é Sidil
Bairro Vila Belo Horizonte fica na região conhecida como Sidil, em Divinópolis
Anna Lúcia Silva/g1
Um dos bairros mais conhecidos de Divinópolis carrega um nome que, oficialmente, não existe nos registros urbanos. A tradicional região do Sidil, referência para milhares de moradores, na verdade tem origem na Vila Santo Antônio.
O nome 'Sidil' acabou popularizado por influência da Sociedade Imobiliária Divinopolitana Ltda. (Sidil). Segundo o historiador Elizeu Ferreira, a empresa foi instalada na região para comercializar loteamentos e, desde então, marcou a identidade do bairro ao longo das décadas.
Com o passar dos anos, o nome popular se sobrepôs ao oficial. Hoje, praticamente toda a cidade se refere à região apenas como Sidil.
"É uma curiosidade que muita gente desconhece. Aquela região reúne vários bairros, como Capitão Silva e Vila Belo Horizonte, mas Sidil mesmo não aparece nos registros", disse o historiador.
2. A casa da batata não vende batatas
Casa da Batata, em Divinópolis
Anna Lúcia Silva/g1
Outro clássico divinopolitano que intriga moradores e visitantes é a famosa Casa da Batata, no bairro Santa Luzia. Apesar do nome, o tradicional estabelecimento não tem a batata como principal produto comercializado no local.
Com cerca de 50 anos de existência, o comércio vende alimentos como cereais e grãos ensacados, entre eles milho e feijão.
O apelido surgiu décadas atrás, quando a atividade inicial era ligada ao armazenamento e à comercialização de batatas. Com o passar do tempo, o alimento deixou de ser vendido, mas o nome permaneceu.
O estabelecimento mudou de perfil, tornou-se uma referência na cidade e manteve a denominação que atravessou gerações. Hoje, é um dos pontos mais conhecidos de Divinópolis.
3. Uma das maiores pistas públicas de skate de MG
Pista de skate do Parque da Ilha, em Divinópolis
Prefeitura de Divinópolis/Divulgação
Divinópolis também se destaca no esporte. A cidade abriga uma das maiores pistas públicas de skate de Minas Gerais, localizada no Parque da Ilha. O espaço passou por uma grande reforma em 2012 e foi ampliado para cerca de 1,5 mil metros quadrados. Com isso, ultrapassou estruturas tradicionais do estado e se tornou referência para atletas da região.
A revitalização recebeu investimento de aproximadamente R$ 100 mil e contou com a participação da Associação Divinopolitana de Skate, que acompanhou o projeto para adaptar a pista às necessidades dos praticantes.
Além de incentivar o esporte e a convivência entre os jovens, a pista ajudou a fortalecer a cultura do skate em Divinópolis. O espaço também abriu caminho para a realização de campeonatos e etapas de competições estaduais e nacionais no município.
4. Ferrovia decisiva para o crescimento da cidade
Linha férrea, em Divinópolis
Anna Lúcia Silva/g1
Se hoje Divinópolis é considerada um dos principais municípios do Centro-Oeste de Minas, muito disso passa pelos trilhos da ferrovia. No fim do século XIX e início do século XX, o transporte ferroviário foi essencial para o desenvolvimento econômico e populacional da cidade.
A chegada da estrada de ferro transformou Divinópolis em um ponto estratégico para a circulação de pessoas e mercadorias. Impulsionou o comércio, atraiu trabalhadores e contribuiu diretamente para a expansão urbana.
Para o historiador Welber Tonhá, o trem simbolizava muito mais do que um meio de transporte.
"O trem não era apenas uma máquina colossal de ferro. Era o próprio pulsar de um futuro implacável que se desenhava sobre dormentes de madeira. À medida que os trilhos se estendiam como veias metálicas pela terra vermelha, a pacata Vila Divinópolis começou a despertar", afirmou.
Welber destaca ainda que cada composição que chegava à cidade trazia não apenas cargas e passageiros, mas também desenvolvimento e transformação social. "Cada vagão que despontava trazia consigo o peso do carvão, das especiarias e também do progresso. Então, definitivamente, a ferrovia foi decisiva para o crescimento da cidade", completou.
Por décadas, o apito dos trens fez parte da rotina dos moradores e ajudou a moldar a identidade ferroviária do município.
5. As gincanas da Savassi mobilizavam multidões
Antes da era das redes sociais e dos eventos digitais, as tradicionais gincanas da região da Savassi movimentavam Divinópolis e reuniam centenas de jovens em disputas que ficaram marcadas na memória da cidade.
A ideia partiu da jornalista Sônia Terra e do marido, Coronel Faria, quando ambos estavam à frente do Jornal Agora, o único jornal impresso que circula até hoje em Divinópolis.
Segundo Sônia, a inspiração veio de uma competição estadual chamada 'Mineiros Frente a Frente', que fazia sucesso em Minas Gerais na época.
"O Coronel Faria se inspirou nessa disputa e falou: 'Vamos criar uma em Divinópolis'. Então nasceram as gincanas, que foram um sucesso", relembrou.
A organização começou com o convite a jovens e lideranças conhecidas da cidade para formar as equipes. Rapidamente, grupos como Balaio de Gato e Funil se tornaram símbolos da disputa. Eles participavam de provas, desfiles, brincadeiras e desafios culturais que tomavam conta das ruas da Savassi entre as décadas de 1980 e 1990.
Mas, segundo Sônia Terra, o evento ia muito além da competição. "Além da disputa, havia também uma proposta social. Não era só brigar pelo título. As equipes arrecadavam roupas, leite e donativos destinados a instituições de caridade. Essa iniciativa foi um grande sucesso", contou.
Ela também lembra que todas as provas eram criadas exclusivamente pelo casal, em segredo absoluto, para evitar qualquer suspeita de favorecimento. "A criação das disputas era só nossa. Ninguém mais participava porque tínhamos medo de que as informações vazassem. Nunca houve nenhuma prova vazada. Fazíamos tudo com muito carinho e pensando no retorno que aquilo teria para a cidade", afirmou.
As gincanas mobilizavam patrocinadores importantes da época, como Coca-Cola, Kaiser e empresas do setor industrial, e transformavam a rotina de Divinópolis. Uma das lembranças mais marcantes, conforme Sônia, foi a participação do famoso 'Baixinho da Kaiser', garoto-propaganda da marca na época, que virou alvo de uma das provas da competição.
"Marcamos época e tenho muito orgulho de ter participado disso tudo. A Savassinha ficava em polvorosa até altas horas da noite. A cidade realmente se movimentava. Foi um período muito bonito e que deixou saudade", finalizou.
6. O menor jornal do mundo foi produzido em Divinópolis
Jornal 'Vossa Senhoria', em Divinópolis
Leida Reis/Arquivo Pessoal
Entre as histórias mais curiosas de Divinópolis está a do 'Vossa Senhoria', reconhecido pelo Guinness World Records como o menor jornal impresso do mundo. Pequeno no tamanho, mas gigante na repercussão, o semanário ajudou a projetar o nome da cidade internacionalmente e se tornou um dos símbolos mais inusitados da história divinopolitana.
Fundado em 1935 pelo jornalista Leônidas Schwindt, o jornal chegou a Divinópolis em 1956 e ganhou notoriedade mundial anos depois. Com apenas 3,5 centímetros de altura por 2,5 centímetros de largura, o impresso cabia na palma da mão, mas trazia notícias, críticas políticas e informações variadas.
Após a morte do fundador, os filhos Lúcio e Dolores Schwindt deram continuidade à publicação no município. Em 2000, o 'Vossa Senhoria' entrou oficialmente para o Guinness Book como o menor jornal do planeta. A última edição foi publicada em março de 2018 e marcou o fim de uma trajetória de mais de oito décadas.
7. Milton Nascimento foi coroado Rei do Congo
Milton Nascimento é coroado como Rei do Congo, em Divinópolis
Divinópolis também entrou para a história da música e da cultura popular brasileira ao coroar Milton Nascimento como Rei do Congo, em maio de 1998. O momento reuniu milhares de pessoas e se transformou em um dos episódios culturais mais marcantes já vividos no município.
Na ocasião, Milton chegou de trem à antiga estação ferroviária e recebeu as boas-vindas de guardas, reis, rainhas e princesas do Congado. Pelas ruas da cidade, o cortejo avançou ao som dos tambores mineiros em uma grande celebração da tradição afro-brasileira.
A coroação foi conduzida por João Bucci, então rei da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário havia mais de 50 anos. Diante de mais de 10 mil pessoas, o artista recebeu homenagens e respondeu da forma pela qual o Brasil inteiro o conhece: com música.
Anos depois, Milton relembrou o episódio com carinho e afirmou que aquele foi 'uma das coisas mais bonitas' que viveu. O momento reforçou a ligação de Divinópolis com o Congado, tradição centenária que permanece viva na cidade.
8. Teatro Gravatá abrigou a primeira usina de álcool a motor da América Latina
Teatro Municipal Usina Gravatá, em Divinópolis
Anna Lúcia Silva/g1
Muito antes de se transformar em um dos principais espaços culturais de Divinópolis, o prédio do atual Teatro Gravatá teve papel pioneiro na história da indústria brasileira. O local abrigou, na década de 1930, a Usina Gravatá, considerada a primeira usina de álcool a motor da América Latina.
Inaugurada em 1932, a estrutura surgiu em um período no qual o Brasil começava a buscar alternativas energéticas para reduzir a dependência de combustíveis importados. A produção de álcool combustível a partir da cana-de-açúcar colocou Divinópolis em posição de destaque em um projeto inovador para a época, décadas antes de o país consolidar programas nacionais voltados ao etanol.
A usina produzia álcool destinado ao abastecimento de motores e veículos, em uma experiência considerada ousada e moderna para os padrões daquele período. Além do impacto econômico, o empreendimento ajudou a movimentar a região, gerou empregos e fortaleceu o setor industrial do município.
Para o historiador Welber Tonhá, o surgimento da usina representava mais do que um avanço tecnológico: simbolizava a chegada de um novo tempo.
"Em idos de 1932, quando os ventos da modernidade começavam a sussurrar suas promessas sobre o vasto solo latino-americano, a terra úmida e fértil testemunhou o nascimento de uma revolução com cheiro de cana e de futuro. Nascia a Usina Gravatá, imponente e visionária", afirmou.
Welber destaca ainda o caráter inovador do empreendimento para a época.
"Longe de ser apenas mais um conjunto de engrenagens a moer a rotina de seus dias sob o sol inclemente, ela se tornou o caldeirão de uma alquimia inédita, onde a doçura da seiva verde se transformava, em meio a vapor e fornalhas, na força bruta capaz de fazer girar a roda do amanhã", completou.
Décadas depois, o espaço foi transformado no Teatro Gravatá e passou a preservar parte da memória de um dos capítulos mais curiosos e pioneiros da história de Divinópolis.
9. Candidés nunca foi uma tribo indígena
Em Divinópolis, o nome Candidés batiza diversos espaços, como a Praça Candidés, localizada antes da ponte do Rio Itapecerica
Reprodução/TV Integração
Muita gente acredita que o nome Candidés, tradicional bairro de Divinópolis, tenha origem indígena. Mas, segundo historiadores, a história é diferente: Candidés nunca foi o nome de uma tribo.
De acordo com o historiador Welber Tonhá, a origem do nome está ligada a Manoel Fernandes Teixeira, um paulista que teria fugido da Guerra dos Emboabas, conflito ocorrido no início do século XVIII entre paulistas e portugueses pelo controle das áreas de mineração em Minas Gerais.
Segundo Welber, ao escapar da guerra, Manoel Fernandes Teixeira se embrenhou na mata da região para fugir dos confrontos e viveu isolado no sertão.
“Ele era um homem branco, de pele muito clara, e destoava bastante dos habitantes da região naquela época. Por causa da pele ‘cândida’, acabou recebendo o apelido de Candidé”, explicou o historiador.
Com o passar do tempo, o nome passou a ser associado ao local onde ele viveu e, posteriormente, gerou a crença popular de que existiria uma tribo indígena chamada Candidés.
“O grande equívoco histórico foi transformar a figura de um único homem em uma suposta nação indígena que nunca existiu”, destacou Welber Tonhá.
A história atravessou gerações e se tornou uma das curiosidades mais conhecidas sobre as origens de Divinópolis e das comunidades do município.
10. Primeiro terminal rodoviário funcionava em frente ao Hotel Íris
Ponto de ônibus com as jardineiras na esquina do Hotel Íris, antes da construção da primeira rodoviária, em 1962
Site Colorindo a História de Divinópolis/Vilton Gonçalves Teixeira
Muito antes da construção da atual rodoviária, o embarque e desembarque de passageiros em Divinópolis ocorria de forma mais simples: em frente ao tradicional Hotel Íris, na avenida Primeiro de Junho.
Segundo o historiador Welber Tonhá, foi em 1925 que a cidade passou a vivenciar os primeiros passos do transporte coletivo rodoviário, com a circulação da chamada 'Jardineira de Halin Souki', um dos primeiros veículos usados para o transporte de passageiros na região.
“O surgimento da jardineira marcou a chegada do transporte público rodoviário em Divinópolis e ajudou a aproximar pessoas e comunidades em uma época em que as viagens ainda eram difíceis”, explicou o historiador.
O ponto de parada da jardineira funcionava justamente em frente ao Hotel Íris, que acabou como o primeiro terminal rodoviário informal da cidade. O local passou a ser referência para partidas, chegadas e encontros de viajantes por décadas.
Welber destaca que o espaço se transformou em um importante ponto de movimentação da cidade. “Ali aconteciam despedidas, reencontros e a circulação de pessoas que ajudavam a movimentar o comércio e a vida urbana de Divinópolis”, afirmou.
O modelo permaneceu ativo até o crescimento urbano e a modernização do transporte exigirem estruturas mais amplas, já próximo à década de 1960.
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