Justiça absolve 6 policiais envolvidos em operação com 26 mortos em Varginha
10/09/2026
(Foto: Reprodução) Polícia Federal inicia perícia em carros e sítios usados por suspeitos de roubo a banco mortos em Varginha (MG)
João Daniel Alves/EPTV
A Justiça Federal absolveu sumariamente, ou seja, sem que o caso fosse levado a julgamento, quatro policiais federais e dois policiais militares (BOPE) acusados de homicídios durante a operação que terminou com 26 mortos, em outubro de 2021, em Varginha, no Sul de Minas.
Na sentença, a 1ª Vara Federal Criminal de Uberaba concluiu que os agentes agiram em legítima defesa. Foram absolvidos Douglas Porpino Cordeiro Batista, Fábio Torres de Oliveira, José Eduardo de Oliveira Malaquias, Kleberson Ferreira Vilarino, Lucas Macedo Fontenele Victor e Welison Teixeira de Souza.
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A decisão ocorre após anos de investigação sobre a atuação das forças de segurança na operação. Em 2024, a Polícia Federal indiciou 39 policiais — 23 policiais rodoviários federais e 16 militares do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) — por homicídio qualificado, tortura e fraude processual.
O inquérito da PF apontou, na época, suspeitas de execuções, tortura e alteração das cenas das mortes. A investigação também contestou a versão apresentada inicialmente pelas forças de segurança de que os 26 mortos haviam sido atingidos durante intensos confrontos.
O vídeo abaixo, de março de 2024, mostra a reconstituição da ação policial:
Veja a reconstituição de uma ação policial que resultou em 26 mortes em Varginha
No processo contra os seis agentes, porém, o juiz concluiu que as provas não confirmaram a tese de execução e reconheceu a legítima defesa.
Após a produção de provas no processo, o Ministério Público Federal (MPF) passou a defender que os seis policiais não fossem levados a julgamento pelo Tribunal do Júri. Segundo o MPF, os depoimentos e as demais provas não permitiram confirmar, com segurança, a hipótese de execução e deixaram dúvidas sobre a dinâmica das mortes e a atuação dos policiais.
Operação terminou com 26 mortos
A operação foi realizada em 31 de outubro de 2021 pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), Polícia Militar (PM) e Bope.
Segundo as forças de segurança, o grupo se preparava para realizar um ataque de grande porte contra instituições financeiras de Varginha, em uma modalidade conhecida como "domínio de cidades".
Na época, PRF e PM afirmaram que houve confrontos em dois imóveis. Dezoito suspeitos morreram em uma primeira abordagem e outros oito em uma segunda chácara.
Foram apreendidos explosivos, armas longas calibre .50, dez fuzis, além de outras armas, munições, granadas, coletes, miguelitos e dez veículos roubados.
Parte do armamento utilizados pelos suspeitos de integrar quadrilha de roubos a bancos que foram mortos em Varginha (MG)
Franco Junior/g1
PF contestou versão de confronto
A versão apresentada pelas forças de segurança passou a ser questionada durante a investigação da Polícia Federal.
No relatório final do inquérito, a PF afirmou que aproximadamente 500 disparos foram feitos pelos agentes de segurança, enquanto 20 foram atribuídos às armas dos suspeitos. Nenhum policial ficou ferido.
A investigação também concluiu que os suspeitos foram surpreendidos pela chegada das forças de segurança e colocou em dúvida a existência do intenso confronto relatado inicialmente pelos policiais.
A PF apontou ainda indícios de adulteração das cenas. Segundo o inquérito, armas longas atribuídas a um dos locais, incluindo uma metralhadora calibre .50, teriam sido colocadas na cena depois do confronto.
A investigação também apontou indícios de que disparos teriam sido feitos após o domínio da situação para simular resistência.
O relatório da PF ainda afirmou que dois integrantes do grupo, Francinaldo Araújo da Silva e Gleisson Fernando da Silva Morais, foram interceptados em um posto de combustíveis em Muzambinho antes da ação nos sítios e sofreram tortura durante o trajeto até Varginha.
As conclusões levaram ao indiciamento de 39 policiais em 2024.
Marcas de tiros permanecem em sítio um mês após operação que matou 26 suspeitos em Varginha (MG)
Reprodução/EPTV
O que mudou durante o processo
Ao analisar especificamente as acusações contra os seis policiais, a Justiça chegou a uma conclusão diferente.
Segundo a sentença, parte dos laudos apresentaram hipóteses que não foram confirmadas pelo restante das provas produzidas durante a instrução. O juiz considerou que parte das conclusões periciais estava baseada em suposições e presunções sem respaldo suficiente nos depoimentos prestados à Justiça.
As defesas também questionaram a cadeia de custódia dos vestígios balísticos e apontaram divergências entre laudos da Polícia Federal e do Instituto Médico-Legal sobre o número de disparos, a localização dos projéteis e a dinâmica das mortes.
O MPF, por sua vez, reconheceu que as provas produzidas em juízo não demonstraram que os seis policiais mataram pessoas já rendidas ou fora de uma situação de combate. Diante das dúvidas, o órgão defendeu que eles não fossem levados ao Tribunal do Júri.
Cinco mortes estavam no centro da denúncia
Os seis policiais respondiam especificamente por cinco das 26 mortes ocorridas na operação.
Douglas Porpino Cordeiro Batista foi acusado da morte de Gleisson Fernando da Silva Morais. Segundo a acusação, Gleisson teria sido retirado de um posto de combustíveis em Muzambinho e posteriormente morto, e o corpo levado para a área de um dos sítios.
Fábio Torres de Oliveira respondia pela morte de Ítallo Dias Alves. A denúncia sustentava que ele teria sido atingido na perna e no pescoço durante uma fuga e, posteriormente, alvejado a curta distância.
José Eduardo de Oliveira Malaquias foi denunciado pela morte de Dirceu Martins Netto, atingido por vários disparos. Segundo a acusação, um dos fragmentos encontrados no corpo foi relacionado ao armamento utilizado pelo policial.
Lucas Macedo Fontenele Victor e Kleberson Ferreira Vilarino eram acusados pela morte de José Filho de Jesus Silva Nepomuceno, atingido por disparos no tórax e no abdômen.
Welison Teixeira de Souza respondia pela morte de Francinaldo Araújo da Silva. A denúncia sustentava que ele havia sido morto quando já estava sob poder das forças de segurança.
Juiz fez defesa de atuação dos agentes
Na sentença, o juiz fez uma defesa da atuação dos agentes e afirmou que os policiais "não foram vilões, foram heróis". O magistrado também classificou os mortos como "vitimizadores".
Segundo o juiz, a operação representou um revés para organizações criminosas especializadas em ações conhecidas como "domínio de cidades" e "novo cangaço".
Ao final, o magistrado entendeu que os seis policiais agiram em legítima defesa, prevista no artigo 25 do Código Penal, e decretou a absolvição sumária com base no artigo 415, inciso IV, do Código de Processo Penal.
Suspeitos de quadrilha de assalto a bancos se dividiram em dois sítios em Varginha
Arte TV Globo
O que diz a defesa
Em nota, a defesa afirmou que recebeu com "profundo respeito e elevada satisfação" a decisão e disse que a absolvição reconheceu a correção da atuação dos agentes durante a operação.
O advogado Fernando Magalhães afirmou que os policiais enfrentaram uma organização criminosa armada que se preparava para realizar uma ação de "domínio" em Varginha.
Segundo a defesa, a decisão "honra o devido processo legal, restaura a dignidade dos envolvidos" e reconhece a legitimidade da atuação dos agentes no cumprimento do dever.