Ônibus lotados, estradas precárias e áreas de risco: os desafios da infraestrutura em MG

  • 25/09/2026
(Foto: Reprodução)
Imagens do Anel Rodoviário, em Belo Horizonte TV Globo Passageiros da Região Metropolitana de Belo Horizonte chegam a gastar quatro horas por dia no trajeto entre a casa e o trabalho. A superlotação dos ônibus, os atrasos constantes e a falta de integração com o metrô estão entre as principais queixas de quem depende do transporte público diariamente. Os gargalos de infraestrutura em Minas Gerais, no entanto, vão além da mobilidade urbana. Nas rodovias, a falta de manutenção e o pavimento defasado encarecem o transporte de cargas em 35%. Ao mesmo tempo, o estado possui a maior malha ferroviária do país, mas metade dos trilhos não tem operação diária, o que limita o escoamento da produção. Além dos problemas logísticos, o estado lida com o impacto das chuvas em locais sem planejamento urbano adequado. Minas abriga três das dez cidades com mais moradores em áreas de risco geológico no Brasil. Para mostrar como esses gargalos afetam a rotina dos mineiros, a reportagem ouviu moradores e especialistas em transportes, urbanismo e hidrologia. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MG no WhatsApp Entenda os principais desafios da infraestrutura e do transporte público no estado a partir dos seguintes pontos: O drama diário nos pontos de ônibus Metrô estagnado e falta de integração Trilhos abandonados e estradas caras O alerta das mudanças climáticas Agora no g1 O drama diário nos pontos de ônibus Enquanto o coletivo metropolitano não chega, as estações viram palco de desabafos. A doméstica Andreia Aparecida sai de casa às 6h e precisa pegar três ônibus para ir e três para voltar. Mesmo assim, não consegue chegar no horário. "Tem dia que tem ônibus, tem dia que não tem. É uma bagunça, chego atrasada todos os dias", lamenta. O autônomo Miguel Almeida Silva, que mora no bairro Justinópolis, em Ribeirão das Neves, leva cerca de uma hora apenas no trajeto do Move saindo do Centro de BH até o terminal metropolitano. Lá, ele ainda precisa contar com a sorte para não perder o ônibus alimentador rumo ao seu bairro. "Se perder, o intervalo é de uma hora. O Move trouxe acessibilidade para quem mora perto do terminal, mas muita gente ainda leva muito tempo se deslocando até os bairros. De nada adianta ter ônibus se não tem planejamento", avalia Miguel, que passa até quatro horas do seu dia apenas no transporte. Metrô estagnado e falta de integração Apesar de ser uma metrópole, a Grande BH sofre com um sistema de trilhos limitado. Após a inauguração da Estação Vilarinho, em 2002, foram 24 anos sem expansão, até que o sistema ganhasse recentemente uma nova estação na Linha 1 e o início das obras da Linha 2. Atualmente, a extensão do metrô é de 30 quilômetros, transportando cerca de 100 mil passageiros por dia. Em média, apenas um em cada 60 moradores da Grande BH utiliza o modal. Em regiões metropolitanas menores, como Salvador e Brasília, as linhas são maiores e atendem a mais passageiros. Para o arquiteto, urbanista e professor do Cefet-MG, Guilherme Leiva, o Estado precisa assumir o papel de articulador regional. "Temos que pensar no ônibus e no metrô de forma complementar. Isso traz menos acidentes, menos poluição e mais inclusão social. É preciso impedir a sobreposição de linhas e criar uma rede inteligente, que não obrigue as pessoas a irem sempre para o mesmo destino", explica. Trilhos abandonados e estradas caras O gargalo logístico se estende para fora das cidades. Minas Gerais possui a maior malha ferroviária do país, com quase 5 mil quilômetros de trilhos, mas apenas a metade tem operação diária. Ana Carolina Simplício, professora do Departamento de Engenharia de Transportes do Cefet-MG, aponta que o abandono de trechos ferroviários é um desperdício econômico. "Se tivéssemos um investimento maior, conseguiríamos ter produtos mais competitivos, interligando rodovias e ferrovias para escoar produtos e até incentivar o turismo", afirma. Nas estradas, o cenário também preocupa. Minas tem a maior malha rodoviária do país, com mais de 270 mil quilômetros — sendo 10% estaduais. Desses 27 mil quilômetros sob responsabilidade do Estado, quase 5 mil ainda não receberam asfalto. A falta de modernização pesa no bolso: um estudo da Confederação Nacional do Transporte (CNT) revelou que as condições das rodovias mineiras geram um aumento de 35% no custo do transporte. "As estradas foram concebidas anos atrás para uma realidade de tráfego e peso de veículos completamente diferente do que temos hoje", alerta a professora Ana Carolina. O alerta das mudanças climáticas Além da mobilidade, a infraestrutura esbarra na segurança climática. Das dez cidades com mais moradores vivendo em áreas de risco geológico no Brasil, três ficam em Minas: Belo Horizonte, Ribeirão das Neves e Juiz de Fora — esta última enfrentou neste ano a pior tragédia ambiental de sua história. No bairro onde a aposentada Normélia Oliveira viveu por mais de 60 anos, em Juiz de Fora, o temporal deixou marcas que não sumiram. A casa dela foi interditada por ficar ao lado de uma pedreira com moradias no topo que ameaçam desabar. Com a casa condenada, a família se separou. "Estou morando temporariamente na casa do meu namorado, minha mãe está num lar de idosos e minha filha em uma casa emprestada. Essa incerteza dói muito, machuca", desabafa Normélia. Para evitar que histórias como a de Normélia se repitam, o especialista em hidrologia Nilo Nascimento cobra urgência do poder público. "Há iniciativas de prevenção, mas elas são muito insuficientes. Precisamos de uma política de estudos de risco de inundação e seca muito mais detalhada. Não sabemos muito bem quanto isso vai custar, mas sabemos que há urgência", conclui.

FONTE: https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/eleicoes/2026/noticia/2026/09/25/viagens-de-4-horas-metro-estagnado-e-medo-da-chuva-os-gargalos-da-infraestrutura-em-minas-gerais.ghtml


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