Pintor que transforma fachadas de casas de pessoas carentes se une a grafiteiro para atender pedido de moradora: 'Faz um botão de rosa?'

  • 25/08/2026
(Foto: Reprodução)
Pintor se une a graffiteiro para atender pedido de moradora Era um muro descascado, com uma árvore na frente e uma calçada repleta de histórias. Quando o idealizador do projeto "Pintura Solidária", Diego Ribeiro Cunha, chegou à residência no Jardim Canaã, em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, bastaram quatro palmas para que a moradora aparecesse com um sorriso no rosto. A casa, repleta de flores, ficava escondida atrás do muro envelhecido. Sem pensar duas vezes, Marta, ou tia Marta, como prefere ser chamada, aceitou participar do projeto, que transformou a fachada da casa. Ela ainda fez um pedido: "Faz um botãozinho de rosa também?". Veja o vídeo acima. ✅ Clique aqui e siga o perfil do g1 Triângulo no WhatsApp O problema é que, apesar de trabalhar com pintura há mais de duas décadas, Diego disse não ter o dom para o desenho. Após publicar nas redes sociais a reforma da fachada da casa da tia Marta, os seguidores fizeram questão de colocá-lo em contato com o artista de grafite Dequete. “Foi de uma forma muito inusitada e espontânea, algo que aconteceu sem que eu ou o pessoal da Pintura Solidária planejássemos. Quando o vídeo da transformação da casa da tia Marta foi publicado, várias pessoas começaram a me marcar e a pedir que eu fosse até lá fazer o botão de rosa. Fiquei muito tocado com esse pedido e decidi participar. Entrei em contato com o pessoal da Pintura Solidária, expliquei que gostaria de presenteá-la com a minha arte e combinamos de fazer essa parceria", relembrou Dequete. Tia Marta ajudou a pintar botão de rosa em seu muro Reprodução/Dequete No vídeo, tia Marta aparece ajudando Dequete na pintura e conta que o gosto pelas flores não é de agora. Por isso, ela também mantém algumas plantadas no jardim. “Muita gente questionou por que a rosa não é rosa, mas eu uso as minhas próprias cores e a minha forma de enxergar a arte. O artista não está ali apenas para replicar as coisas, mas para mostrar a sua visão de mundo. Nesse caso, foi uma forma de expressar o meu carinho pelo trabalho da Pintura Solidária e também pelo carinho que as pessoas demonstraram por essa iniciativa.” Além disso, para o artista, o reconhecimento do grafite entre pessoas da terceira idade mostra que o trabalho de conscientização sobre sua arte vem dando resultado em Uberlândia, cidade que o acolheu há 13 anos. “Quando cheguei a Uberlândia, a cidade ainda não estava muito adaptada ao grafite. Como havia pouco conhecimento sobre esse tipo de arte, recebíamos muitas denúncias, principalmente de pessoas mais velhas que não entendiam o trabalho. Hoje, a polícia e a população já compreendem melhor o que fazemos. Fico feliz em perceber essa transformação e ver que as pessoas passaram a procurar e valorizar o nosso trabalho. Para mim, foi uma grande conquista perceber, por exemplo, que hoje até idosos nos contratam e pedem a nossa participação. O grafite sempre será uma intervenção na paisagem urbana, mas uma intervenção livre, que carrega a identidade e a visão de cada artista.” Apesar do reconhecimento, o artista ressalta que é preciso apoio para que os projetos continuem pela cidade. “Existe um imaginário de que temos apoio da Prefeitura ou de marcas de tinta, mas não é assim. Eu sou belorizontino e estou em Uberlândia há 13 anos. A cidade me abraçou, então a forma que encontrei de retribuir esse carinho é levando a minha arte para as pessoas. Eu vivo do meu trabalho e dependo das pessoas que me contratam para conseguir minha renda. Por isso, quando posso participar de uma ação como essa de forma voluntária, faço com muito carinho.” A semente da solidariedade e os primeiros traços Da esquerda para a direita, Vinicius, Diego e Warley Reprodução/Redes Sociais A ideia do "Pintura Solidária" surgiu no fim de 2024, enquanto Diego navegava pelas redes sociais após um dia de trabalho. Ele viu vídeos de ações comunitárias em diferentes lugares do mundo, com voluntários limpando quintais e reformando casas. Foi então que pensou em usar a própria profissão para ajudar outras pessoas. A decisão de colocar a ideia em prática foi imediata. O primeiro passo foi dado ao lado da mulher, Jéssica Ernandina Silva, com quem Diego vive desde 2000. Em seguida, os amigos Warley Montalvão e Vinícius Dias aderiram ao projeto e ajudaram nos primeiros mutirões. Para realizar as intervenções sem custos para os moradores, o projeto conseguiu o apoio de empresas da cidade que fornecem tintas, fitas adesivas e produtos químicos. Os patrocinadores também ajudam com despesas de combustível, alimentação e pequenos reparos estruturais. Com o passar dos meses, os amigos deixaram o projeto por causa de compromissos pessoais. Foi quando Diego ganhou um novo parceiro dentro de casa: o filho mais velho, Davi Ribeiro Silva, de 15 anos. Aos fins de semana, o adolescente passou a acompanhar o pai e a aprender, na prática, técnicas de pintura e a importância da empatia. Apesar da proposta, o projeto também enfrentou dificuldades. No início, o principal desafio era convencer as famílias a aceitar a doação. "No começo a gente teve muita rejeição. As pessoas achavam que era algum tipo de golpe, que a gente iria fazer o serviço para cobrar depois ou que se tratava de alguma propaganda política disfarçada. Hoje, por conta da transparência nas redes sociais, o pessoal já nos reconhece e a confiança mudou completamente", disse o pintor. Mesmo sendo uma iniciativa voluntária, alguns moradores recusam ter seus muros revitalizados Reprodução/Redes Sociais LEIA TAMBÉM: Quem é a influenciadora com sotaque mineiro que tem mais de 100 milhões de visualizações em receitas do 'tempo da vovó' Veja sabores inusitados de pizzas com pequi, pudim e picanha Conheça a confeiteira que conquistou artistas com receitas caseiras Muros que guardam e renovam histórias Com ações quinzenais em bairros de Uberlândia com maior vulnerabilidade social, como São Jorge, Jardim Canaã e Morumbi, o projeto já transformou 48 muros desde 2024. Uma das histórias mais marcantes aconteceu recentemente, quando uma mãe entrou em contato com o projeto para pedir ajuda para a filha, de 22 anos. A jovem havia perdido familiares, enfrentava depressão e descoberto recentemente que estava grávida, em meio a dificuldades financeiras. Sem dinheiro para reformar a casa, a jovem dizia, com tristeza, que morava na "casa mais feia da rua". "Essa história bateu forte demais no meu coração. Me fez lembrar diretamente do meu próprio começo, da minha juventude aos 18 anos, quando tudo era muito difícil e a gente trabalhava na marra para conseguir pagar as contas e ter o que comer. Poder chegar no momento certo e devolver o orgulho e o sorriso para alguém que já sofreu tanto não tem preço", relembrou Diego, emocionado. Em outro episódio, a equipe recebeu três recusas consecutivas de moradores da mesma rua, que temiam cobranças posteriores. Na quarta casa, os voluntários bateram à porta de uma senhora. Assim que se apresentaram, a moradora caiu em prantos e contou que havia sonhado, naquela mesma semana, que a fachada de sua casa seria pintada. Pintor transforma fachadas de famílias carentes sem cobrar nada em Uberlândia O bem que se multiplica No mercado tradicional, a pintura completa de uma fachada, incluindo mão de obra e materiais, custa entre R$ 2 mil e R$ 2,5 mil. O trabalho também ganhou repercussão nas redes sociais. As transformações feitas pelo projeto ajudaram o perfil a ultrapassar 149 mil seguidores no Instagram e deram projeção à iniciativa no TikTok. A repercussão também impulsionou a carreira de Diego. Desde o início das ações sociais, a procura pelos serviços particulares dobrou. “Meus clientes aumentaram em mais de 100%”, contou. Mais do que renovar paredes, o "Pintura Solidária" também tem inspirado moradores das regiões atendidas. Vizinhos passaram a se mobilizar para organizar mutirões de pintura e conservação das próprias casas, depois de verem as fachadas revitalizadas pelo projeto. "A gente vê a alegria das pessoas, o agradecimento sincero delas, a tentativa de agradar a gente até com um copo d'água. É uma troca de energia que não existe dinheiro no mundo que pague. É uma satisfação que preenche a alma de um jeito muito gratificante", finalizou Diego. Fachada de casa transformada Reprodução/Redes Sociais VÍDEOS: veja tudo sobre o Triângulo, Alto Paranaíba e Noroeste de Minas

FONTE: https://g1.globo.com/mg/triangulo-mineiro/noticia/2026/08/25/pintor-que-transforma-fachadas-de-casas-de-pessoas-carentes-se-une-a-grafiteiro-para-atender-pedido-de-moradora-faz-um-botao-de-rosa.ghtml


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