'Vale a pena lutar, tô viva': aos 56 anos, mulher trans desafia estatísticas e celebra envelhecimento

  • 28/06/2026
(Foto: Reprodução)
Aos 56 anos, mulher trans desafia estatísticas e celebra envelhecimento em Juiz de Fora Durante décadas, Jade Dias acreditou que não chegaria à velhice. Mulher trans nascida em Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, ela escondeu por anos quem era. Tentou a vida religiosa em um seminário, enfrentou rejeição familiar, sobreviveu da prostituição e lidou com dependência química em uma época em que falar sobre identidade de gênero era praticamente impossível. Hoje, aos 56 anos, faz parte de uma geração de pessoas trans que envelhece em um país onde muitas não tiveram a chance de chegar à mesma idade. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Zona da Mata no WhatsApp Neste Dia Internacional do Orgulho LGBT+, celebrado em 28 de junho, a trajetória de Jade Dias revela as marcas deixadas por décadas de invisibilidade e exclusão sobre uma comunidade que precisou lutar, antes de tudo, pela sobrevivência. “Vivi muitos anos negando quem eu era. Passei parte da vida sobrevivendo, não vivendo, e agora estou viva e feliz, valeu a pena lutar”, resume. Jade Dias, mulher trans de 56 anos, celebra a vida neste Dia Internacional do Orgulho LGBT+ Luiza Sudré/g1 'Você tinha que ser homem e ponto' Caçula de uma família pobre de 10 irmãos, Jade cresceu nos últimos anos da ditadura militar. Desde cedo, percebia que não se encaixava nas expectativas impostas ao corpo em que nasceu. “Quando eu tinha 11 anos, os meninos tinham que tirar a camisa para a aula de educação física, e eu não conseguia. Sentia um arrepio na espinha. Era como se eu estivesse expondo os meus seios”, recordou. Sem referências para compreender o que sentia, passou a se esconder. “Não se falava de pessoas trans. Era um pecado, uma coisa de outro mundo”, disse. Jade Dias, na infância, durante missa na Igreja Católica em Juiz de Fora Arquivo Pessoal Em casa e na rua, a regra era uma só: "Você tinha que ser homem, e ponto". “A gente apanhava dos pais. O único jeito de sobreviver era viver dentro do armário. Mas isso me trouxe depressão, tristeza profunda e agonia em negar a própria existência". Quando a fé parecia uma saída Na juventude, Jade encontrou na religião uma tentativa de proteção. Entrou para um seminário em Juiz de Fora e tentou ser padre. “O seminário era um lugar respeitado. Pensei que, se fosse padre, ninguém me apontaria na rua. Mas chegou um momento em que entendi que não podia viver escondendo quem eu era debaixo de uma batina". Ela deixou a formação após aceitar que não conseguiria sustentar a própria repressão. “Conversei com Deus e entendi que aquilo não era minha vocação. Eu precisava encarar a realidade". A luta pela sobrevivência Sem oportunidades no mercado formal, Jade foi para a prostituição para sobreviver. “Quem dava emprego para alguém como eu naquela época?”, questionou. Trabalhou em Juiz de Fora, no Rio de Janeiro, em São Paulo e chegou a viver por meses na Itália. “Eu fazia programa em um dia para ter o que comer no outro. Não era escolha, era sobrevivência". Nesse período, enfrentou também a dependência química. "Bebia muito. As drogas eram uma forma de anestesiar a dor. Não era falta de caráter, era falta de apoio". Jade Dias (ao centro, com lenço na cabeça), na primeira Parada do Orgulho LGBT+ em Juiz de Fora Arquivo Pessoal O envelhecimento que parecia impossível Jade não pensava no futuro. A ideia de envelhecer parecia distante para uma geração que viu amigas desaparecerem cedo, vítimas da violência e da falta de acesso a direitos. “Nunca pensei em ficar velha. A gente não via isso acontecer. O desafio era só continuar viva dia após dia". Aos 56 anos, ela já ultrapassou a expectativa de vida da população trans no Brasil, estimada em cerca de 35 anos pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). A distância entre esses números ajuda a explicar por que envelhecer parecia improvável. O Brasil é o país que mais mata pessoas trans e travestis, com 80 assassinatos registrados em 2025. Jade Dias é líder comunitária no bairro Dom Bosco, em Juiz de Fora Luiza Sudré/g1 Transição, nome e reconstrução Após rodar o país e o mundo, voltou a Juiz de Fora para cuidar da mãe, que enfrentava uma doença degenerativa. Jade iniciou a transição. Buscou apoio psicológico, assistência social e entrou na fila do Sistema Único de Saúde (SUS) para cirurgia de redesignação sexual. A espera durou quase 10 anos. O procedimento foi realizado em 2017, mas a mudança mais importante foi interna. “O que me completou foi a própria aceitação. A mulher sempre esteve em mim". No mesmo ano, oficializou o nome escolhido: Jade. "É o nome de uma pedra preciosa. Talvez não seja a mais valiosa, mas tem valor próprio". 'Preciso contar a minha história' Hoje, Jade vive em Juiz de Fora e se tornou referência para jovens LGBT+ do bairro Dom Bosco, que a procuram em busca de acolhimento. Falar sobre a própria história também representa uma forma de cuidado coletivo. “Sinto que me expor ajuda outras pessoas. Preciso contar a própria história". Depois de décadas de sobrevivência, Jade chegou a um lugar que um dia acreditou ser impossível: o futuro. "Minha conclusão é que vale a pena lutar. Olha para mim: estou viva". Jade Dias, mulher trans, de 56 anos, celebra a vida neste Dia Internacional do Orgulho LGBT+ Luiza Sudré/g1 LEIA TAMBÉM: Irmandade, arte e muito brilho: a vivência das drag queens na cena cultural juiz-forana Miss Brasil Gay: história de resistência e orgulho LGBT+ há quase 50 anos VÍDEOS: veja tudo sobre a Zona da Mata e Campos das Vertentes

FONTE: https://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/noticia/2026/06/28/vale-a-pena-lutar-to-viva-aos-56-anos-mulher-trans-desafia-estatisticas-e-celebra-envelhecimento.ghtml


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